Passageiros, 2014
Museu da Estrada de Ferro Sorocabana para Frestas Trienal de Artes de Sorocaba
Instalação na Galeria de Diretores
Fotos interferidas, textos


Brom quase toda semana ganhava um brinquedo novo. Nada que pudesse ser comprado nas vendas da cidade, seu pai é que os inventava e fabricava nas Oficinas da Sorocabana. Era sempre uma surpresa para os cinco irmãos o que viria. Havia um que era uma misteriosa cápsula de vidro protegida por uma espécie cachimbo de bambu. O pai os levava a um quarto escuro para soprarem no aparelhinho e quando acendia a luz estavam com o rosto coberto de talco, como se nevasse apenas sobre eles no calor escaldante de dezembro em Sorocaba.
De todos os brinquedos, o que mais gostou tinha a aparência de prata líquida que se dividia em bolhas prateadas quando passavam de mão em mão. Já adulto, numa madrugada em que vigiava a temperatura da filha caçula, se deu conta do que era feito o brinquedo preferido: mercúrio vivo.



Mara chegou a Sorocaba sozinha, falava uma língua estranha e indecifrável a todos. Pendurada ao pescoço trazia uma corrente de ouro com a fotografia de um homem de tez morena e olhos acinzentados. Hospedou-se no Hotel Pereira Inácio, todas as manhãs, logo cedo descia até a estação. Passava seus dias mostrando o retrato aos passageiros que chegavam e partiam e, com os olhos, perguntava se o teriam visto.
Uma única vez em quase trezentos dias foi vista conversando e sorrindo com alguém que lhe anotava algo em um papel.
No mesmo dia pagou as despesas do hotel e partiu no primeiro trem. Ninguém nunca mais a viu.



Neto tinha carteirinha da Sorocabana e com ela circulava
sózinho de trem desde os 8 anos de idade. Fazia pequenos
serviços de portador, levava o jornal para cidades menores,
visitava seu avô, ferroviário aposentado, em Mairinque...
A muito custo acabou o colégio, pois era um sacríficio para
ele estar longe do saculejar do trem.
Todos na linha o conheciam. Um dia, na falta de um
funcionário,chamaram-no para ajudar na cozinha do
vagão restaurante. Teve um bom desempenho, pois
ao contrário dos outros iniciantes, não sentia dificuldade
para trabalhar com a máquina em movimento,
de familiarizado que estava com o vai e vem.
De auxiliar passou a garçon e durante décadas serviu
refeições a bordo acompanhadas de guaraná caçula.
Numa ida a Mongaguá soube que a cantina da estação
estava para arrendar. Decidiu dar pouso ao corpo já
um pouco cansado do balançar das viagens.
No início havia bastante movimento mesmo fora do verão e o negócio ia de vento em popa. Com o tempo os horários já não eram regulares,
a chegada dos trens foi minguando, o mato começou a cobrir
os trilhos, até que por ali ninguém mais chegou.
Mesmo assim não fechou a cantina, há quem goste de tomar uma dose no silêncio da plataforma .



Nilton começou bem cedo a seguir os passos do pai. E, assim como ele, não demorou muito a destacar-se na manufatura de peças especiais nas Oficinas da Sorocabana.
Certa vez houve uma encomenda de fora, pediram que desenvolvesse uma adaptação para as máquinas da Tecelagem Santa Maria. Os fios sintéticos começavam a entrar no mercado e as máquinas precisavam acompanhar os novos tempos.
Após quase cinco meses de dedicação, Nilton foi finalmente instalar as peças na fábrica. Foi recebido pessoalmente por um dos proprietários da fábrica. Ao ver o maquinário todo funcionando, o empresário emocionado ofereceu a Nilton uma viagem à Inglaterra.
Nilton embarcou pouco tempo depois e pode ver com os próprios olhos porque sua cidade era tida como a “Manchester Paulista”.
Na volta promoveu impecáveis e concorridas sessões de slides para amigos, parentes e colegas de trabalho. Depois de aposentado, a concessionária, com dificuldade em conseguir mão de obra qualificada, chamou-o para voltar a trabalhar nas oficinas. Ele aceitou o convite, mas no segundo dia não teve ânimo para voltar. Doeu-lhe muito ver as saudosas Oficinas, outrora tão ativas, chegando a acolher três mil trabalhadores, agora funcionando com pouco mais de cem funcionários.
Ficou em casa, fechou as cortinas, foi ver slides.



Mimosa não conhecia o Rio de Janeiro. Nas férias de seu primeiro ano de trabalho como ascenssorista decidiu conhecer a cidade maravilhosa. Era verão e iria passar lá o carnaval. Preparou a fantasia com meses de antecedência, fez reserva em um alojamento indicado por amigos e partiu. Divertiu-se muito, visitou todos os pontos turísticos e fez algumas amizades na beira da praia.
No dia da partida chegou à Estação Central e na plataforma foi informada de que o trem não sairia naquele dia, disseram que voltasse dentro de três dias. Avisou a família, ligou para uma das novas amigas e hospedou-se em seu apartamento. Três dias depois voltou à estação, e no guichê da empresa encontrou apenas um cartaz: "Linha Rio- São Paulo inoperante por tempo indeterminado". Ficou confusa, já não lhe sobrava dinheiro suficiente para comprar passagem de ônibus. Voltou à casa da amiga e lendo o jornal viu um anúncio de emprego para condutor do bondinho do Pão de Açúcar. Conseguiu o trabalho e no ano seguinte foi passar as férias em sua cidade natal.



Vovô Carica nasceu em Sorocaba, mas ainda menino mudou-se com a família para Porto Alegre. Estudou no Conservatório Musical , passou a lecionar e foi um dos músicos integrantes da primeira formação da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, a OSPA. Alguns anos depois estava para ser fundada a Orquestra Sinfônica de Sorocaba, e ele recebeu um convite formal a integrá-la.
Ficou tentado a voltar à terra natal, mas se recusava a separar-se de seu piano nem sequer por um dia. Foi então se informar e descobriu que era possível despachar de trem toda a mudança, inclusive o piano e embarcar com a esposa e os filhos no carro dormitório da mesma composição, numa cabine/leito com todo o conforto.
Foram três dias e três noites com centenas de paradas, trocas de locomotiva e muitas idas ao vagão restaurante.
No dia seguinte à chegada já se ouviu soar o piano, ainda que notadamente desafinado pelo saculejo.



Bella era a filha mais velha de um comerciante português. O pai vendia as melhores sedas que se podia encontrar na região. Vaidosa, estava sempre vestida como que para uma festa, mas não podia enamorar-se de ninguém, pois estava prometida a um primo que viria de Portugal trabalhar com o pai no comando de seu futuro empreendimento, a primeira tecelagem da cidade. Por várias vezes a chegada do jovem português foi anunciada, mas por diferentes razões o esperado noivo não chegava a seu destino. Finalmente marcou-se o casamento, Bella usou uma preciosa seda para fazer um vestido deslumbrante, mas o navio enfrentou mal tempo e tardou mais do que o previsto para atracar em Santos. O noivo desembarcaria em Sorocaba na hora exata da boda.
Bella não se deu por rogada, fez transferir as festividades para a Estação Ferroviária. Improvisou-se um altar, pendurou-se um grande toldo de algodão e tudo foi adornado com lindos arranjos de flores.
Durante muito tempo a festa foi assunto corrente nas rodas de conversa da cidade. Dezoito anos depois repetiram a feita para casar a filha primogênita.



A linha do trem passava no fundo do quintal de Pity. Desde que se conhecia por gente o ritmo dos dias era marcado pelo apito da locomotiva cruzando a única rua de seu povoado.
A família tinha um sítio e viviam do cultivo de árvores frutíferas. A pequena estação ficava próxima ao pomar e três vezes por semana o pai levava as caixas para comercializar na cidade. Quando chegou aos quinze anos, quis acompanhar o pai na labuta. Saiam cedinho, ela ficava no mercado enquanto ele fazia as entregas nas quitandas locais. Um dia, enquanto desembarcava com as caixas vazias, trocou olhares com um passageiro muito bem apessoado. Coinscidência ou não, todos os dias ele se fez presente no mesmo horário e vagão. Uma tarde porém, ela não o avistou e intimamente estranhou sua ausência. Chegou ao sítio, passou no depósito com o pai e chegando em casa viu que a mãe 'fazia sala' para alguém. Percebeu então que se tratava do rapaz do trem. O mesmo voltou-se para o pai e para ela e apresentou-se. Era um agrimensor e procurava um quarto para alugar por alguns meses, enquanto realizava um trabalho nas redondezas.
Casualmente havia na casa o quarto vago do irmão de Pity que fora estudar na capital.
O homem ali instalou-se, e a todos agradava com sua presença.
Passados três meses, ele havia acabado o serviço e era hora de partir. A família entristeceu-se, por uma semana o silêncio imperou entre eles. Voltando do mercado no domingo, Pity viu movimento na casa. Lá estava ele de volta, trazia no bolso duas alianças de noivado.



Condessinha era assim chamada por ser filha de um conde local. O pai, porém, vivia com o restante da família na capital. A cidade naquele momento passava por grandes alterações urbanísticas e teriam que mudar-se do casarão na área central da capital , pois o mesmo seria demolido para a construção de um viaduto. Acharam por bem deixar a menina aos cuidados dos avós e de uma ama no interior. Somente aos seis anos a menina foi conhecer a capital, mas o ruído das ruas a deixava nervosa a ponto de adoecer. Decidiu-se então que ficaria no interior. Assim como ela, a cidade foi crescendo e a moça não suportava ouvir os apitos das fábricas, os automóveis, os trens, e ainda por cima os bondes. Escreveu então ao pai apelando para que buscasse um lugar mais tranquilo para sua morada. Ao pai não faltavam terras, as tinha espalhadas por toda a região, escolheu então construir um palacete para a filha às margens do Rio Paraná, no pacato vilarejo de Presidente Epitácio.
Condessinha aprovou a escolha do local e lá passou o resto de sua vida, ouvindo o murmurar do rio e, somente a cada três dias, o apito do trem que chegava à estação recém construída.



Célia e Lúcio se conheceram quando entraram no colégio primário e desde o primeiro dia de aula tornaram-se amigos. Sentavam lado a lado, voltavam caminhando pra casa, eram cúmplices em todos os acontecimentos da vida escolar e fora dela.
No final do fundamental a escola organizou uma viagem, iriam de trem passar o final de semana em Suarão. A viagem, além de marcar a passagem para uma nova etapa escolar, também se sabia, seria a última oportunidade para ir de trem até o litoral.
Combinaram de dormir juntos na véspera para acordar cedo e partir às cinco e quarenta da Estação Ferroviária.
O despertador tocou ainda era escuro. Quando acenderam a luz e olharam-se tomaram um susto: um viu no outro inúmeras pintas de catapora. Passaram o final de semana pensando no caminho que nunca mais fariam.